Doença de Peyronie e Doença de Dupuytren: existe relação entre elas?

Peyronie e Dupuytren

A doença de Peyronie e a doença de Dupuytren podem estar relacionadas? Entenda por que essas doenças fibroproliferativas frequentemente ocorrem juntas, quais fatores aumentam esse risco e o que a ciência mais recente revela sobre essa associação.


Doença de Peyronie e Doença de Dupuytren: quando a fibrose afeta diferentes partes do corpo

Quando um homem recebe o diagnóstico de doença de Peyronie, sua principal preocupação costuma ser a curvatura do pênis, a dificuldade nas relações sexuais ou a possibilidade de necessitar de uma cirurgia. Da mesma forma, quem desenvolve doença de Dupuytren geralmente procura um ortopedista por notar que um ou mais dedos da mão começam a dobrar progressivamente, dificultando tarefas simples do dia a dia.

À primeira vista, essas duas doenças parecem não ter qualquer relação entre si. Afinal, uma acomete o pênis e a outra as mãos. Durante muitos anos, inclusive, acreditou-se que essa coincidência fosse apenas casual.

Entretanto, a medicina mudou significativamente sua compreensão sobre essas doenças nas últimas décadas.

Hoje sabemos que ambas pertencem a um mesmo grupo de doenças denominado fibroproliferativas, caracterizadas por uma produção exagerada de tecido cicatricial. Em outras palavras, o organismo passa a cicatrizar de maneira desproporcional, formando placas de fibrose onde normalmente não deveriam existir.

Essa descoberta não representa apenas uma curiosidade científica. Ela tem implicações práticas importantes para pacientes e médicos. Homens com doença de Peyronie apresentam maior probabilidade de desenvolver doença de Dupuytren ao longo da vida, e o contrário também é verdadeiro. Além disso, fatores como tabagismo, hipertensão arterial e consumo excessivo de álcool parecem aumentar ainda mais esse risco.

Um dos trabalhos mais importantes publicados recentemente sobre esse tema foi um estudo multicêntrico francês envolvendo 450 pacientes, acompanhado por especialistas em urologia e cirurgia da mão. Os pesquisadores confirmaram que a associação entre essas doenças é muito mais frequente do que se imaginava e reforçaram a hipótese de que ambas compartilham mecanismos biológicos semelhantes.

Compreender essa relação é importante não apenas para quem já possui uma dessas doenças, mas também para familiares, profissionais de saúde e pacientes que desejam entender por que algumas pessoas apresentam uma tendência maior à formação de fibrose em diferentes partes do corpo.

Neste artigo, o Instituto Peyronie apresenta uma revisão completa sobre essa associação, baseada nas evidências científicas mais recentes e nas diretrizes internacionais.


O que é a doença de Peyronie?

A doença de Peyronie é uma enfermidade caracterizada pela formação de uma placa de tecido fibroso na túnica albugínea, uma membrana extremamente resistente que envolve os corpos cavernosos do pênis.

Para entender por que isso acontece, é útil imaginar a túnica albugínea como o revestimento de um balão. Durante a ereção, ela precisa expandir-se de maneira uniforme para permitir que o pênis aumente de tamanho e permaneça reto.

Quando surge uma área endurecida — a chamada placa de Peyronie — essa expansão deixa de ocorrer de forma homogênea. O lado onde existe a fibrose torna-se menos elástico, enquanto o lado oposto continua expandindo normalmente. Como consequência, o pênis passa a curvar-se durante a ereção.

Dependendo da localização da placa, podem surgir diferentes deformidades:

  • curvatura para cima;
  • curvatura para baixo;
  • desvio lateral;
  • estreitamento localizado (“efeito ampulheta”);
  • perda de comprimento;
  • afinamento do pênis.

Nos estágios iniciais, muitos pacientes também relatam dor durante a ereção. Essa dor costuma diminuir com o passar dos meses, mas a deformidade pode permanecer ou até progredir.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto emocional da doença. A alteração da anatomia peniana pode provocar ansiedade, insegurança, redução da autoestima, medo das relações sexuais e até sintomas depressivos. Estudos mostram que a doença de Peyronie interfere significativamente na qualidade de vida, não apenas do paciente, mas também de sua parceira ou parceiro.

Apesar de sua relevância, a doença ainda é subdiagnosticada. Muitos homens sentem vergonha de procurar ajuda ou acreditam, equivocadamente, que a curvatura faz parte do envelhecimento normal.


O que é a doença de Dupuytren?

A doença de Dupuytren é uma condição semelhante sob o ponto de vista biológico, mas que ocorre na palma das mãos.

Nesse caso, a fibrose desenvolve-se na fáscia palmar, uma camada de tecido conjuntivo localizada logo abaixo da pele.

Inicialmente surgem pequenos nódulos endurecidos que, muitas vezes, são indolores. Com o passar do tempo, esses nódulos transformam-se em cordões fibrosos que retraem lentamente os dedos em direção à palma da mão.

Os dedos mais frequentemente acometidos são o quarto e o quinto dedos, embora qualquer dedo possa ser afetado.

Ao contrário da doença de Peyronie, cuja principal limitação ocorre durante a atividade sexual, a doença de Dupuytren interfere em atividades cotidianas aparentemente simples, como apertar mãos, vestir luvas, colocar a mão no bolso ou apoiar a palma sobre uma superfície plana.

Assim como acontece na doença de Peyronie, trata-se de uma doença benigna. Ela não é um câncer e não aumenta o risco de desenvolver tumores malignos. No entanto, seu impacto funcional pode ser bastante significativo quando não diagnosticada e tratada adequadamente.


O que essas doenças têm em comum?

Essa é a pergunta que intrigou pesquisadores durante quase dois séculos.

A primeira descrição da possível associação entre doença de Peyronie e doença de Dupuytren remonta ao início do século XIX. Naquela época, porém, não existiam conhecimentos sobre genética, biologia molecular ou cicatrização que permitissem compreender essa relação.

Hoje sabemos que ambas compartilham praticamente os mesmos mecanismos celulares.

Sempre que ocorre uma lesão em qualquer parte do organismo, inicia-se um processo de cicatrização.

Normalmente, esse processo segue etapas muito bem controladas. Inicialmente ocorre inflamação, seguida da chegada de células responsáveis pelo reparo tecidual. Entre essas células destacam-se os fibroblastos.

Os fibroblastos podem ser imaginados como verdadeiros “engenheiros da cicatrização”. Sua principal função é produzir colágeno, proteína que confere resistência aos tecidos.

Após o reparo completo, esses fibroblastos reduzem sua atividade e parte do colágeno produzido é reorganizada ou degradada.

Na doença de Peyronie e na doença de Dupuytren, entretanto, esse equilíbrio deixa de existir.

Os fibroblastos permanecem ativados por tempo excessivo e sofrem uma transformação, tornando-se células ainda mais contráteis, chamadas miofibroblastos. Essas células passam a produzir grandes quantidades de colágeno, contraem o tecido ao redor e formam placas ou cordões fibrosos.

Em outras palavras, o organismo continua cicatrizando mesmo quando não deveria mais fazê-lo.

Essa produção exagerada de tecido cicatricial é justamente a característica que une essas duas doenças.

Diversos estudos demonstraram que alterações em moléculas envolvidas na inflamação, no remodelamento da matriz extracelular e na comunicação entre os fibroblastos estão presentes tanto nas placas da doença de Peyronie quanto nos tecidos acometidos pela doença de Dupuytren.

Essa descoberta modificou profundamente a forma como os especialistas enxergam essas enfermidades. Em vez de doenças isoladas, elas passaram a ser compreendidas como manifestações diferentes de uma mesma predisposição biológica à fibrose.


A associação entre doença de Peyronie e doença de Dupuytren é realmente tão frequente?

Durante muito tempo, a relação entre essas duas doenças foi baseada apenas em relatos de casos e pequenas séries de pacientes. Embora muitos urologistas observassem que alguns homens com doença de Peyronie também apresentavam alterações nas mãos, ainda não havia evidências suficientemente robustas para afirmar que essa associação fosse mais do que uma coincidência.

Essa percepção começou a mudar nos últimos anos.

Em 2024, pesquisadores franceses publicaram um dos maiores estudos já realizados sobre o tema, envolvendo 450 pacientes atendidos em centros especializados em urologia e cirurgia da mão. Diferentemente de estudos anteriores, os pesquisadores avaliaram pacientes dos dois grupos: homens acompanhados por doença de Peyronie foram examinados quanto à presença de doença de Dupuytren, e pacientes acompanhados por Dupuytren também foram investigados quanto à presença de doença de Peyronie. Essa metodologia permitiu analisar a associação de forma bidirecional, reduzindo vieses importantes.

Os resultados foram bastante expressivos.

Entre os pacientes inicialmente acompanhados por doença de Peyronie, 29,1% apresentavam também doença de Dupuytren. Já entre aqueles acompanhados por Dupuytren, 12,6% tinham doença de Peyronie. Ao final, quase um em cada cinco participantes possuía as duas doenças simultaneamente.

Esses números são significativamente superiores aos observados na população geral, fortalecendo a hipótese de que existe uma predisposição biológica compartilhada.

É importante interpretar esses dados corretamente. Eles não significam que todo homem com doença de Peyronie desenvolverá doença de Dupuytren, nem que todo paciente com Dupuytren apresentará curvatura peniana. O que eles demonstram é que o risco é maior do que seria esperado pelo acaso.

Essa informação tem implicações práticas. Um paciente diagnosticado com doença de Peyronie deve ser questionado sobre sintomas nas mãos, enquanto um homem tratado por Dupuytren deve ser orientado a procurar um urologista caso perceba curvatura peniana adquirida, placas endurecidas ou alterações na ereção.


Uma predisposição à fibrose, e não apenas duas doenças diferentes

Uma das mudanças mais importantes na compreensão dessas doenças foi perceber que elas provavelmente representam manifestações distintas de um mesmo fenômeno biológico: a tendência de determinados indivíduos desenvolverem fibrose exagerada.

A fibrose pode ser entendida como uma cicatriz que continua crescendo mesmo quando o processo de reparação deveria ter terminado.

Normalmente, sempre que ocorre uma lesão, o organismo ativa mecanismos para reparar o tecido. Após o término da cicatrização, essas vias são desligadas. Nos pacientes com doenças fibroproliferativas, entretanto, esse “interruptor” parece não funcionar adequadamente.

O resultado é uma produção contínua de colágeno, remodelamento persistente do tecido e formação de placas ou cordões fibrosos.

Isso explica por que um mesmo indivíduo pode apresentar manifestações em diferentes regiões do corpo.

Além da doença de Peyronie e da doença de Dupuytren, existe outra condição frequentemente associada: a doença de Ledderhose, que acomete a fáscia plantar dos pés.


O que é a doença de Ledderhose?

Embora seja muito menos conhecida, a doença de Ledderhose faz parte do mesmo grupo de doenças fibroproliferativas.

Nesse caso, a fibrose ocorre na planta dos pés, levando ao aparecimento de nódulos endurecidos que podem causar desconforto ao caminhar ou permanecer longos períodos em pé.

No estudo francês, a presença dessa doença foi significativamente mais frequente em pacientes que apresentavam Dupuytren isoladamente e, principalmente, naqueles que possuíam simultaneamente Dupuytren e doença de Peyronie.

Esse achado reforça a ideia de que algumas pessoas possuem uma predisposição sistêmica à formação de tecido cicatricial excessivo.

Para o médico, isso significa que o diagnóstico de uma dessas doenças deve aumentar a atenção para o aparecimento das demais. Para o paciente, significa compreender que alterações aparentemente independentes podem, na verdade, fazer parte do mesmo processo biológico.


Os fatores de risco modificáveis: aquilo que pode ser controlado

Nem todos os fatores envolvidos no desenvolvimento da doença de Peyronie ou da doença de Dupuytren podem ser modificados. A predisposição genética, por exemplo, não pode ser alterada.

Entretanto, diversas pesquisas mostram que alguns hábitos de vida parecem aumentar o risco de desenvolvimento ou progressão dessas doenças.

Tabagismo

O cigarro é um dos fatores mais consistentemente associados às doenças fibroproliferativas.

A fumaça do tabaco contém milhares de substâncias capazes de provocar inflamação crônica, estresse oxidativo e lesão dos pequenos vasos sanguíneos. Essas alterações prejudicam a oxigenação dos tecidos e favorecem uma resposta cicatricial anormal.

No estudo de 2024, o tabagismo foi significativamente mais frequente entre os pacientes que apresentavam doença de Peyronie e doença de Dupuytren simultaneamente do que entre aqueles com doença de Peyronie isolada.

Embora interromper o tabagismo não reverta as placas já existentes, abandonar esse hábito traz inúmeros benefícios cardiovasculares e pode reduzir estímulos inflamatórios relacionados à progressão da doença.


Consumo de álcool

Outro achado importante foi a maior frequência de consumo diário de álcool entre os pacientes que apresentavam ambas as doenças.

Os mecanismos ainda não são totalmente compreendidos, mas acredita-se que o consumo crônico de álcool possa favorecer alterações metabólicas, inflamatórias e vasculares que contribuem para a formação de fibrose.

Isso não significa que qualquer ingestão ocasional de bebida alcoólica cause doença de Peyronie ou Dupuytren. O estudo avaliou principalmente o consumo diário, e ainda são necessárias pesquisas para definir melhor a intensidade dessa relação.


Hipertensão arterial

A hipertensão também apareceu com maior frequência entre os pacientes que possuíam as duas doenças.

Esse resultado é biologicamente plausível.

A pressão elevada provoca lesões progressivas na parede dos vasos sanguíneos, reduz a qualidade da circulação e favorece processos inflamatórios persistentes. Em tecidos sujeitos a microtraumas repetidos, como a túnica albugínea do pênis, esse ambiente pode estimular mecanismos relacionados à fibrose.

Além disso, a hipertensão frequentemente está associada a outras condições, como obesidade, síndrome metabólica e disfunção endotelial, que também podem interferir na cicatrização.


Diabetes mellitus

A relação entre diabetes e essas doenças é um pouco mais complexa.

Estudos anteriores sugerem que pacientes diabéticos apresentam maior prevalência de doença de Peyronie e de Dupuytren. No entanto, no estudo francês essa diferença não atingiu significância estatística.

Isso não significa que o diabetes não tenha importância. Provavelmente, diferentes populações e metodologias explicam parte dessas divergências. Além disso, o diabetes está associado à pior qualidade dos vasos sanguíneos, maior inflamação e alterações da cicatrização, fatores biologicamente relacionados à fibrose.


A genética pode explicar essa associação?

Tudo indica que sim.

Hoje existe um consenso crescente de que a predisposição genética desempenha papel fundamental, especialmente na doença de Dupuytren.

No estudo francês, pacientes com Dupuytren apresentavam histórico familiar significativamente mais frequente, envolvendo pais, irmãos e outros parentes próximos.

Nas últimas décadas, estudos genéticos identificaram diversas regiões do DNA associadas ao desenvolvimento da doença de Dupuytren. Algumas delas envolvem genes relacionados ao funcionamento dos fibroblastos, ao remodelamento da matriz extracelular e à contração dos miofibroblastos.

Curiosamente, muitas dessas mesmas vias biológicas também aparecem na doença de Peyronie.

Isso não significa que exista um único “gene da doença de Peyronie”. Na realidade, trata-se de uma condição multifatorial, na qual diversos genes interagem com fatores ambientais, envelhecimento, microtraumas e características individuais.

Uma maneira simples de compreender essa relação é imaginar que algumas pessoas nascem com uma tendência maior a produzir cicatrizes exuberantes. Se, ao longo da vida, determinados fatores desencadeantes estiverem presentes, essa predisposição poderá manifestar-se na palma das mãos, no pênis, na planta dos pés ou, eventualmente, em mais de uma dessas regiões.


O papel das novas pesquisas

Uma das áreas mais promissoras da medicina atual é justamente o estudo das vias moleculares envolvidas na fibrose.

Pesquisadores já identificaram alterações em moléculas responsáveis pela comunicação entre os fibroblastos, pelo remodelamento do colágeno e pela diferenciação dos miofibroblastos tanto na doença de Peyronie quanto na doença de Dupuytren.

O objetivo dessas pesquisas é desenvolver tratamentos capazes de atuar antes da formação definitiva da placa, interrompendo o processo de fibrose em suas fases iniciais.

Embora essas terapias ainda estejam em investigação, elas representam uma das perspectivas mais promissoras para o futuro do tratamento dessas doenças.


Como essas doenças são diagnosticadas?

Apesar de compartilharem diversos mecanismos biológicos, o diagnóstico da doença de Peyronie e da doença de Dupuytren é realizado por especialistas diferentes. Enquanto a primeira costuma ser acompanhada pelo urologista, a segunda é geralmente diagnosticada pelo ortopedista ou cirurgião da mão.

Em ambos os casos, entretanto, o diagnóstico é predominantemente clínico. Ou seja, na maioria das situações, uma boa história clínica associada a um exame físico cuidadoso é suficiente para estabelecer o diagnóstico.

Diagnóstico da doença de Peyronie

O primeiro passo consiste em compreender a história da doença.

O urologista procura identificar quando a curvatura surgiu, se houve dor durante as ereções, se ocorreu perda de comprimento peniano, dificuldade para a penetração ou alterações na rigidez da ereção.

Em seguida, realiza-se o exame físico para identificar a presença de placas endurecidas na túnica albugínea.

Dependendo do caso, outros exames podem complementar essa avaliação.

A ultrassonografia peniana com Doppler é particularmente útil quando se deseja avaliar:

  • localização da placa;
  • presença de calcificações;
  • vascularização peniana;
  • eventual disfunção erétil associada.

Fotografias realizadas durante ereção, obtidas pelo próprio paciente em ambiente domiciliar ou durante ereção farmacologicamente induzida, também ajudam a medir objetivamente a curvatura.

Essas informações são fundamentais para definir a melhor estratégia terapêutica.


Diagnóstico da doença de Dupuytren

Na doença de Dupuytren, o exame físico costuma ser ainda mais característico.

O médico observa e palpa a palma da mão em busca de:

  • pequenos nódulos endurecidos;
  • cordões fibrosos;
  • retração progressiva dos dedos;
  • limitação da extensão dos dedos.

Em casos iniciais, os nódulos podem ser discretos e praticamente indolores. Com o tempo, entretanto, ocorre encurtamento progressivo dos cordões fibrosos, levando à deformidade típica.

Exames de imagem raramente são necessários.


A coexistência das duas doenças muda o tratamento?

Essa é uma pergunta extremamente frequente.

Até o momento, não existem evidências de que pacientes com doença de Peyronie e Dupuytren necessitem de um tratamento diferente apenas por apresentarem ambas as doenças.

O estudo francês mostrou que homens com as duas doenças não apresentaram diferenças estatisticamente significativas quanto ao grau médio da curvatura peniana, à frequência de disfunção erétil ou à necessidade de cirurgia quando comparados aos pacientes com doença de Peyronie isolada.

Entretanto, isso não significa que essa associação seja irrelevante.

Ao contrário.

Ela serve como um importante alerta para que o médico investigue outras manifestações fibroproliferativas e acompanhe esses pacientes de maneira mais abrangente.


Como é tratado o paciente com doença de Peyronie?

O tratamento depende principalmente da fase da doença.

Na fase inicial, conhecida como fase inflamatória ou ativa, o objetivo é controlar os sintomas e acompanhar a evolução da placa.

Já na fase estável, quando a deformidade deixa de progredir por alguns meses, as decisões passam a ser direcionadas principalmente pela limitação funcional causada pela curvatura.

As opções terapêuticas incluem:

  • observação em casos leves;
  • medicamentos orais em situações selecionadas;
  • terapias intralesionais quando indicadas;
  • dispositivos de tração peniana;
  • cirurgia corretiva para deformidades incapacitantes;
  • implante peniano nos pacientes que apresentam simultaneamente deformidade importante e disfunção erétil grave.

É importante destacar que nem todo paciente necessita de cirurgia.

A decisão depende da intensidade da deformidade, da estabilidade da doença, da função erétil e das expectativas individuais do paciente.

As diretrizes da European Association of Urology (EAU) recomendam uma abordagem individualizada, baseada nas características de cada caso.


Como é tratada a doença de Dupuytren?

Assim como ocorre na doença de Peyronie, nem todo paciente necessita de tratamento imediato.

Quando a doença é discreta e não interfere na função da mão, pode ser suficiente realizar acompanhamento periódico.

Nos casos mais avançados, as opções incluem:

  • fasciotomia;
  • fasciectomia;
  • procedimentos minimamente invasivos em pacientes selecionados.

O objetivo é restaurar a extensão dos dedos e melhorar a função da mão.


O impacto psicológico costuma ser subestimado

Grande parte das discussões científicas concentra-se na fibrose, na genética e nos tratamentos cirúrgicos.

Entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado é o impacto emocional dessas doenças.

A doença de Peyronie está associada a:

  • redução importante da autoestima;
  • medo da relação sexual;
  • ansiedade de desempenho;
  • sintomas depressivos;
  • sofrimento do casal;
  • diminuição da qualidade de vida.

Muitos pacientes deixam de iniciar novos relacionamentos por vergonha da deformidade peniana.

Outros evitam relações íntimas por receio da reação da parceira ou do parceiro.

Da mesma forma, pacientes com doença de Dupuytren frequentemente relatam frustração por perder gradualmente funções simples da mão dominante.

Essas limitações podem afetar atividades profissionais, esportivas e sociais.

Quando ambas as doenças coexistem, o impacto psicológico pode ser ainda maior.

Por isso, o tratamento moderno não deve limitar-se apenas à correção anatômica. É fundamental compreender como a doença interfere na vida do paciente e oferecer uma abordagem integral.


O futuro do tratamento: o desafio de controlar a fibrose

Durante muitos anos, o tratamento da doença de Peyronie concentrou-se principalmente na correção da deformidade já estabelecida.

Hoje, entretanto, a pesquisa científica busca um objetivo diferente: impedir que a fibrose se desenvolva.

Essa mudança de paradigma decorre do melhor entendimento dos mecanismos celulares envolvidos na doença.

Pesquisadores investigam medicamentos capazes de modular a atividade dos fibroblastos, bloquear a transformação em miofibroblastos e interferir nas vias responsáveis pela produção exagerada de colágeno.

Embora ainda não exista uma terapia capaz de prevenir completamente a formação das placas, o conhecimento adquirido nas últimas duas décadas faz com que muitos especialistas considerem esse um dos campos mais promissores da urologia reconstrutiva.


Perguntas frequentes

Quem tem doença de Dupuytren obrigatoriamente desenvolverá doença de Peyronie?

Não.

O risco é maior do que na população geral, mas a maioria dos pacientes nunca desenvolverá a outra doença.


Quem tem doença de Peyronie deve examinar as mãos?

Sim.

Embora não exista recomendação para exames específicos, vale a pena observar o aparecimento de nódulos, cordões ou dificuldade para estender completamente os dedos.


Essas doenças são hereditárias?

Existe importante influência genética, especialmente na doença de Dupuytren.

Entretanto, a herança é complexa e envolve múltiplos genes associados a fatores ambientais.

Ter familiares acometidos aumenta o risco, mas não significa que a doença seja inevitável.


São doenças autoimunes?

Não.

Embora processos inflamatórios participem do desenvolvimento da fibrose, atualmente elas não são classificadas como doenças autoimunes.


Essas doenças aumentam o risco de câncer?

Não.

Tanto a doença de Peyronie quanto a doença de Dupuytren são doenças benignas e não aumentam, por si só, o risco de desenvolver câncer.


Quando procurar um urologista?

Você deve procurar avaliação especializada caso perceba:

  • curvatura peniana adquirida;
  • endurecimento no pênis;
  • perda de comprimento;
  • deformidade durante a ereção;
  • dor persistente nas ereções;
  • dificuldade para manter relações sexuais.

Se você já possui doença de Dupuytren, informe esse diagnóstico ao seu urologista. Da mesma forma, pacientes com doença de Peyronie que observem alterações progressivas nas mãos devem mencionar esse fato durante a consulta.

A integração entre diferentes especialidades permite um acompanhamento mais completo e favorece o diagnóstico precoce de manifestações associadas.


Conclusão

A associação entre a doença de Peyronie e a doença de Dupuytren deixou de ser considerada uma simples curiosidade clínica. Hoje, as evidências demonstram que ambas compartilham mecanismos biológicos relacionados à fibrose, fatores de risco semelhantes e uma provável predisposição genética comum.

O estudo multicêntrico publicado em 2024 reforçou essa compreensão ao demonstrar que a coexistência entre as duas doenças ocorre com frequência significativamente maior do que na população geral, especialmente em homens expostos a fatores como tabagismo, hipertensão arterial e consumo diário de álcool.

Para os pacientes, essa informação traz uma mensagem importante: o diagnóstico de uma dessas doenças deve estimular uma avaliação mais ampla da saúde fibroproliferativa. Para os médicos, reforça a necessidade de uma abordagem integrada, investigando manifestações em diferentes regiões do corpo e orientando os pacientes de forma individualizada.

Embora ainda não exista um tratamento capaz de impedir completamente o desenvolvimento da fibrose, os avanços na compreensão dos mecanismos celulares envolvidos nessas doenças abrem perspectivas promissoras. À medida que novas terapias direcionadas forem desenvolvidas, será possível não apenas tratar as deformidades já estabelecidas, mas talvez atuar precocemente para modificar a evolução natural dessas condições.

No Instituto Peyronie, acompanhamos continuamente os avanços da literatura científica para oferecer aos nossos pacientes informações confiáveis, baseadas em evidências e alinhadas às principais diretrizes internacionais. Conhecimento de qualidade é um dos primeiros passos para um diagnóstico precoce, um tratamento individualizado e melhores resultados clínicos.


Referências

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  5. Terrier JE, Nelson CJ. Psychological aspects of Peyronie’s disease. Translational Andrology and Urology. 2016;5(3):290–295.

Bônus: O futuro do tratamento da doença de Peyronie — será possível impedir a formação da fibrose?

Durante décadas, o tratamento da doença de Peyronie foi, em grande parte, reativo. Os médicos aguardavam a estabilização da doença para, então, corrigir a deformidade por meio de medicamentos, terapias locais ou cirurgia. Em outras palavras, o foco era tratar as consequências da fibrose, e não impedir que ela se desenvolvesse.

Nos últimos anos, entretanto, essa visão começou a mudar.

O avanço da biologia molecular permitiu compreender que a placa da doença de Peyronie não é simplesmente uma “cicatriz endurecida”. Ela resulta de uma complexa interação entre células inflamatórias, fibroblastos, miofibroblastos, fatores de crescimento e proteínas responsáveis pela remodelação do tecido conjuntivo.

Esse novo conhecimento abriu uma perspectiva extremamente promissora: em vez de apenas corrigir a curvatura depois que ela já está estabelecida, talvez seja possível, no futuro, interromper o processo de fibrose antes que a placa se forme ou impedir sua progressão.

O grande protagonista: o miofibroblasto

Grande parte das pesquisas atuais concentra-se em uma célula chamada miofibroblasto.

Durante uma cicatrização normal, os fibroblastos são recrutados para reparar o tecido lesionado. Depois de concluído o reparo, essas células reduzem sua atividade e o processo de cicatrização chega ao fim.

Na doença de Peyronie, porém, esse mecanismo parece perder o controle.

Os fibroblastos permanecem ativados por tempo prolongado e transformam-se em miofibroblastos, células capazes de produzir grandes quantidades de colágeno e, ao mesmo tempo, contrair o tecido ao seu redor. É justamente essa combinação que leva à formação da placa fibrosa e à deformidade peniana.

Por esse motivo, muitos pesquisadores consideram os miofibroblastos o principal alvo para futuras terapias antifibróticas.

Bloquear a fibrose antes que ela aconteça

Outra estratégia em investigação consiste em interferir nas moléculas responsáveis pela comunicação entre as células durante a cicatrização.

Diversos fatores de crescimento participam desse processo, mas um deles recebe atenção especial: o TGF-β (Transforming Growth Factor Beta).

Essa proteína funciona como um “comandante” da resposta cicatricial. Em condições normais, ela coordena o reparo dos tecidos. Entretanto, quando sua atividade se torna excessiva ou prolongada, estimula continuamente a transformação dos fibroblastos em miofibroblastos e aumenta a produção de colágeno.

Por isso, bloquear ou modular a ação do TGF-β é uma das principais linhas de pesquisa em doenças fibroproliferativas, incluindo a doença de Peyronie, a doença de Dupuytren e até mesmo fibroses pulmonares, hepáticas e cardíacas.

Medicina de precisão: tratar pacientes de forma personalizada

Outro avanço esperado é a aplicação da chamada medicina de precisão.

Hoje sabemos que dois pacientes podem apresentar deformidades semelhantes, mas terem mecanismos biológicos diferentes impulsionando a doença. No futuro, exames genéticos e biomarcadores poderão identificar quais vias celulares estão mais ativas em cada indivíduo.

Isso permitirá escolher tratamentos direcionados ao mecanismo predominante em cada paciente, aumentando a eficácia e reduzindo tratamentos desnecessários.

Embora essa abordagem ainda esteja em desenvolvimento, ela representa uma tendência em praticamente todas as áreas da medicina moderna.

A influência da genética

Estudos recentes também demonstram que fatores hereditários exercem papel importante na doença de Peyronie.

Pesquisas identificaram alterações em genes relacionados ao remodelamento da matriz extracelular, à diferenciação dos miofibroblastos e à sinalização celular envolvida na fibrose. O estudo francês publicado em 2024 reforça essa hipótese ao mostrar que a doença de Peyronie compartilha mecanismos biológicos importantes com a doença de Dupuytren, outra doença claramente influenciada por predisposição genética.

Embora esses conhecimentos ainda não tenham sido convertidos em testes genéticos de uso rotineiro, eles ajudam a explicar por que alguns homens desenvolvem uma resposta cicatricial exagerada após pequenos traumas, enquanto outros nunca apresentam a doença.

O desafio de transformar descobertas em tratamentos

Apesar do entusiasmo gerado pelas pesquisas laboratoriais, é importante manter expectativas realistas.

Muitos medicamentos que apresentam excelentes resultados em modelos experimentais acabam não demonstrando a mesma eficácia em estudos clínicos com seres humanos. A doença de Peyronie possui uma fisiopatologia complexa e multifatorial, o que torna improvável que exista uma única “cura” capaz de resolver todos os casos.

Além disso, qualquer nova terapia precisa demonstrar não apenas eficácia, mas também segurança, especialmente porque o tratamento será destinado a pacientes com uma condição benigna.

Por esse motivo, antes que um novo medicamento seja incorporado à prática clínica, ele deve passar por um rigoroso processo de desenvolvimento, incluindo estudos pré-clínicos, ensaios clínicos em diferentes fases e avaliação pelas agências regulatórias.

Uma perspectiva otimista, mas baseada em evidências

O tratamento da doença de Peyronie vive um momento semelhante ao observado em outras áreas da medicina há algumas décadas: a compreensão dos mecanismos biológicos está avançando muito mais rapidamente do que a disponibilidade de novos medicamentos.

Isso pode parecer frustrante para quem convive com a doença hoje, mas representa uma excelente notícia para o futuro.

Cada nova descoberta sobre os processos que levam à formação da fibrose aproxima a medicina de terapias capazes não apenas de corrigir deformidades já estabelecidas, mas de impedir que elas se desenvolvam.

Embora ainda não exista um tratamento capaz de bloquear completamente a formação das placas, o conhecimento acumulado nas últimas duas décadas transformou profundamente a compreensão da doença de Peyronie. Pela primeira vez, pesquisadores não estão apenas perguntando como corrigir a curvatura, mas também como evitar que ela apareça.

Essa mudança de paradigma representa uma das perspectivas mais promissoras para os próximos anos e reforça a importância da pesquisa científica no desenvolvimento de tratamentos cada vez mais eficazes e individualizados para os pacientes com doença de Peyronie.

Bônus: O papel do ácido hialurônico de alto peso molecular no tratamento da doença de Peyronie: uma nova fronteira no combate à fibrose

Até poucos anos atrás, o ácido hialurônico era conhecido principalmente por seu uso em dermatologia estética e no tratamento da osteoartrite. Entretanto, pesquisas recentes demonstraram que essa molécula possui propriedades biológicas muito mais amplas, incluindo efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e antifibróticos.

Essas descobertas despertaram o interesse de pesquisadores que estudam a doença de Peyronie, uma enfermidade caracterizada justamente por um processo inflamatório crônico seguido pela formação de fibrose na túnica albugínea do pênis.

Embora ainda não exista um tratamento capaz de eliminar completamente a placa de Peyronie, o ácido hialurônico de alto peso molecular (High Molecular Weight Hyaluronic Acid – HMW-HA) surgiu como uma das alternativas mais promissoras para pacientes na fase inicial da doença.


Muito além de um “preenchedor”

Quando se fala em ácido hialurônico, muitas pessoas imediatamente pensam em preenchimentos faciais. Essa associação é compreensível, mas representa apenas uma pequena parte das funções dessa molécula.

O ácido hialurônico é um polissacarídeo naturalmente presente em praticamente todos os tecidos do organismo.

Ele desempenha diversas funções importantes:

  • mantém a hidratação dos tecidos;
  • facilita a cicatrização;
  • reduz o atrito entre estruturas;
  • participa da comunicação entre as células;
  • modula a resposta inflamatória.

Na túnica albugínea, essas propriedades podem influenciar diretamente o ambiente biológico onde a placa de Peyronie se desenvolve.


O tamanho da molécula faz toda a diferença

Um aspecto pouco conhecido é que nem todo ácido hialurônico exerce os mesmos efeitos biológicos.

Sua ação depende principalmente do tamanho da molécula.

Ácido hialurônico de baixo peso molecular

Quando fragmentado em pequenas moléculas, o ácido hialurônico pode atuar como um sinal de lesão para o organismo.

Esses pequenos fragmentos estimulam receptores inflamatórios presentes nos tecidos, favorecendo a produção de citocinas inflamatórias e perpetuando o processo de reparação.

Em outras palavras, pequenas moléculas podem funcionar como um “alarme”, informando ao organismo que ainda existe dano tecidual.


Ácido hialurônico de alto peso molecular

Já o ácido hialurônico de alto peso molecular apresenta comportamento praticamente oposto.

Ele ajuda a estabilizar o ambiente extracelular, reduz a ativação de células inflamatórias e parece limitar a diferenciação dos fibroblastos em miofibroblastos — justamente as células responsáveis pela produção exagerada de colágeno na doença de Peyronie.

Essa diferença explica por que os estudos atuais dão preferência ao uso de formulações de alto peso molecular.


Como o ácido hialurônico pode atuar na doença de Peyronie?

A doença de Peyronie evolui, de maneira simplificada, em duas etapas.

Primeiro ocorre uma fase inflamatória.

Posteriormente instala-se a fibrose.

O ácido hialurônico parece interferir exatamente nessa transição.

Diversos mecanismos foram propostos.

1. Redução da inflamação

Após pequenos traumas repetitivos na túnica albugínea, ocorre liberação de diversas moléculas inflamatórias.

Essas substâncias recrutam fibroblastos e iniciam o processo de cicatrização.

O ácido hialurônico de alto peso molecular ajuda a reduzir essa resposta inflamatória, tornando o ambiente menos favorável ao desenvolvimento da fibrose.


2. Modulação dos fibroblastos

Os fibroblastos representam a principal célula produtora de colágeno.

Na doença de Peyronie, essas células permanecem excessivamente ativadas.

Estudos experimentais sugerem que o ácido hialurônico reduz essa ativação, diminuindo a transformação dos fibroblastos em miofibroblastos.

Esse talvez seja seu mecanismo mais importante.


3. Redução do estresse oxidativo

Outro fenômeno presente na doença de Peyronie é o aumento dos radicais livres.

Essas moléculas provocam lesão celular e perpetuam a inflamação.

Há evidências de que o ácido hialurônico apresenta efeito antioxidante indireto, contribuindo para reduzir esse ambiente oxidativo.


4. Modulação do TGF-β

O Transforming Growth Factor Beta (TGF-β) é considerado um dos principais mediadores da fibrose.

Ele estimula intensamente a produção de colágeno e favorece a diferenciação dos miofibroblastos.

Modelos experimentais sugerem que o ácido hialurônico pode reduzir parte dessa sinalização, contribuindo para limitar a progressão da placa.

Embora esse efeito ainda esteja sendo investigado, ele representa uma das hipóteses mais interessantes da pesquisa atual.


O que mostram os estudos clínicos?

Nos últimos anos, diversos estudos clínicos avaliaram injeções intraplaca de ácido hialurônico em pacientes com doença de Peyronie.

De maneira geral, os resultados apontam para benefícios principalmente em pacientes na fase ativa da doença.

Entre os efeitos observados estão:

  • redução da dor durante a ereção;
  • diminuição da atividade inflamatória;
  • melhora discreta da curvatura em parte dos pacientes;
  • melhora da elasticidade dos tecidos;
  • melhora da função sexual em alguns estudos.

É importante destacar que os resultados são bastante variáveis.

Alguns pacientes apresentam melhora significativa, enquanto outros apresentam pouca ou nenhuma resposta.

Isso provavelmente reflete a própria heterogeneidade da doença.


Ácido hialurônico substitui a cirurgia?

Não.

Essa é uma das dúvidas mais frequentes dos pacientes.

Quando a placa já está completamente madura, calcificada e associada a deformidades importantes, o ácido hialurônico dificilmente conseguirá reverter sozinho essas alterações.

Nessas situações, a cirurgia continua sendo o tratamento mais eficaz para corrigir deformidades incapacitantes.

Por outro lado, em pacientes diagnosticados precocemente, especialmente durante a fase inflamatória, o ácido hialurônico pode contribuir para reduzir sintomas e, possivelmente, limitar a progressão da doença.


Existe vantagem em utilizar ácido hialurônico de alto peso molecular?

Do ponto de vista biológico, sim.

As formulações de alto peso molecular apresentam maior capacidade de modular processos inflamatórios e parecem reproduzir melhor o comportamento do ácido hialurônico presente naturalmente nos tecidos saudáveis.

Além disso, possuem maior tempo de permanência local e menor potencial pró-inflamatório quando comparadas às formas fragmentadas.

Essas características tornam o HMW-HA particularmente interessante para doenças fibroproliferativas como a doença de Peyronie.


O futuro pode estar na combinação de terapias

Provavelmente o maior potencial do ácido hialurônico não está em seu uso isolado.

Cada vez mais pesquisadores defendem que a doença de Peyronie deve ser tratada por meio de uma abordagem multimodal.

Isso significa combinar diferentes estratégias capazes de atuar em mecanismos distintos da doença.

Nesse contexto, o ácido hialurônico pode funcionar como um modulador biológico da inflamação e da fibrose, enquanto outras terapias atuam sobre remodelamento tecidual, tração mecânica, melhora da função erétil e correção da deformidade.

Essa filosofia terapêutica é semelhante ao tratamento moderno de diversas doenças crônicas, nas quais diferentes medicamentos atuam de forma complementar para produzir resultados superiores aos obtidos com uma única intervenção.


Uma perspectiva baseada em evidências

O ácido hialurônico de alto peso molecular representa uma das abordagens mais interessantes surgidas nos últimos anos para o tratamento conservador da doença de Peyronie. Seu potencial vai muito além do simples efeito mecânico observado em aplicações estéticas. Trata-se de uma molécula biologicamente ativa, capaz de influenciar processos fundamentais envolvidos na inflamação e na fibrose.

Embora os resultados disponíveis sejam encorajadores, ainda existem importantes lacunas científicas. Permanecem sem resposta questões como a dose ideal, o intervalo entre aplicações, o número mais adequado de sessões e quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar desse tratamento.

Por esse motivo, o ácido hialurônico deve ser encarado como parte de uma estratégia terapêutica individualizada, baseada na fase da doença, nas características da placa e nos objetivos do paciente.

À medida que novos estudos clínicos forem publicados, é provável que seu papel no tratamento da doença de Peyronie seja mais bem definido. O conhecimento atual, entretanto, já permite afirmar que o ácido hialurônico de alto peso molecular deixou de ser apenas uma promessa experimental e passou a ocupar um lugar relevante entre as opções conservadoras para pacientes cuidadosamente selecionados.